sábado, 8 de dezembro de 2012

Poesia - A Metamorfose








Eu, em recente foto tirada na Alemanha, após engolir alguns críticos literários
na feira do Livro  em Colonia. Ou foi em Pedro Juan, em Paraguay. Sei lá...
A Metamorfose
Hoje não mais estranhei as escamas que crescem à minha pele,
O fato de estar transformando-me em um peixe deixou de ser assunto
No Face, não se fala mais nisso e o repórter chato deixou de procurar-me
Sempre desejei ser peixe, ainda quando era ave e poucos notavam
Sentava pelicano no Teatro, e ninguém me aborrecia:
“Ei, um pelicano que curte Shakespeare!”
Não, nada disso, apesar do cachecol esconder-me o pescoço.
Alguns amigos fingem que não notam as guelras
Pelo menos não me pedem mais poemas para aniversário.
Sim, não ficaria bem, afinal um peixe, um peixe...não tem glamour
Não pelo menos, presumem, o de um Pelicano.  
Pelo jeito serei golfinho, acho, pela protuberância
Continuo abismado por ninguém na vida transformar-se em nada
E ao longo do tempo permanecerem sempre os mesmo chatos iguais!
No máximo um outro vira barata,
mas por isso Kafka definitivamente não se responsabiliza


* Permitida a reprodução só por peixes.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Humor - Curitiba, a Cidade “fora de época”

 Curitiba, a Cidade “fora de época” - Uma reflexão bem humorada sobre o "ser curitibano"

Não ousem se meter com nossos pentes!


            Eu sou curitibano... e por isso já estou desconfiado de você que está lendo meu texto. Por que está lendo? Eu não o conheço, você não me conhece, por que leria? Tá bom, se quiser ler, leia, mas sem muita intimidade...  Bom, mas tudo tem uma explicação e isto está sendo comprovado agora: nós, curitibanos, somos de fato “fora de época”. De qual época? De todas as épocas.  Por isso, não existe coincidência em criarmos o réveillon fora de época. Se é fora de época, não é réveillon, diria você que não mora aqui. Esta lógica pode funcionar em qualquer lugar, mas não aqui, na cidade “fora de época”. Por exemplo, enquanto em outras cidades existe uma moda específica para cada estação, aqui nós estamos acostumados com: “Atenção! Agora, na passarela, a coleção inverno-verão-primavera-outono-semiárido-semitropical-tropical...”, tudo no mesmo dia. Se você sai com um guarda-chuva com o sol a pino, ninguém vai te chamar de maluco. Vai chamar de maluco quem não levar um guarda chuva, por mais que não se veja nenhuma nuvem no céu. Se ninguém estiver levando um guarda-chuva sob um sol escaldante, teremos a sensação de que não estamos em nossa cidade, não nos sentiremos “seguros”, se é que me entendem. A gente procura avidamente alguém na Rua XV levando um guarda-chuva e não encontra: “Hunnn, ninguém levando um guarda-chuva neste sol de rachar? Aposto que vai chover! E eu não trouxe o meu! Isso que dá confiar em mais de 50%”.  E o pior, nós gostamos de falar do clima no elevador. É engraçado, porque aqui não existe “clima” para falar do clima, mas só para contrariar, adoramos falar de algo que não existe para nós:
            - É, parece que o tempo firmou...
            - É, firmou, até às três horas estará “firme”...vi na previsão! (E por que curitibano vive acompanhando a previsão do tempo se aqui não existe tempo? Ora, porque é do contra! Só para dizer: eu sabia! Eu sabia! Ela errou de novo! Nunca vai acertar!).  
            - Mas pela noite é capaz de melhorar...
            - É, o sol vai sair a meia noite! Vi na previsão, mas menos de 50% por cento acreditam!
            Bom, essa mania de estatísticas é por que aqui nossos jornais não tem manchetes, tem estatísticas: sessenta por cento disso, setenta daquilo. As estatísticas nos fazem bem, justamente porque desejamos contrariá-las, desconfiados.  Então, se colocarem que mais de cinquenta por cento das pessoas fazem isto ou aquilo, nós não vamos querer fazer parte delas. Nunca seremos mais da metade que fazem isto ou aquilo. Fazemos questão de ser diferentes. Mais de cinquenta por cento almoçam. Então eu paro de almoçar. Vou misturar-me com eles? Vou ser mais um destes que almoçam? Vou reforçar as estatísticas? Claro que não!  Por isto, não estranhamos que aqui o Réveillon seja fora de época... E, engraçado, o governo não quer que seja na...Espanha (a praça)! É, nós fazemos o nosso reveillon fora de época e de país, na “Espanha”...e os espanhóis nem sabem disso! E por que não no Japão...? Podíamos fazer nosso réveillon no Japão! Sim, aqui existe esta possibilidade! Duvida? Nós temos inúmeros bairros inteiros cujas praças e ruas tem nome de outras cidades e países. Isso é revelador: eu acho que nós queremos aparentar para os que não são daqui que de fato nossa cidade  não é daqui e nós mesmos não somos daqui, apesar de gostarmos daqui, só para contrariar: “Eu nasci aqui, mas meus pais estavam de passagem!”. Parece isso. Nós tememos que nos identifiquem: “É um curitibano e lá, tudo é ao contrário!”. Somos um povo moralista, mas um dos nossos maiores escritores...só fala de sacanagem! Temos uma praça do Homem e da Mulher nus, mas o nome não é esse, é só popularmente a do “Homem Nu”! Isso bem perto do Palácio. Chega um turista e pergunta: onde é o palácio? O Governo? A Assembleia? E a gente responde, convicto: “ É ali,  para frente da praça do homem pelado...e ainda nos chamam de conservadores! Pode?”.  Nosso principal museu...é um olho! Sim, um olho... para cuidar da vida dos outros! O arquiteto pegou bem nossa essência: também, nós não paramos de reparar nele, no arquiteto,  durante todo o tempo em que esteve aqui. Ninguém puxa conversa, mas que repara, repara! “Hunn, esse cara aí, qual é a dele? O que irá fazer? Nem sabe como somos!”. Mas ele devia saber que nós nos sentimos seguros quando alguém está cuidando de tudo. É o “Olho do grande irmão”. O artista percebeu isso: “Hunn, o que vou fazer? Bom, esse pessoal olha, olha e não diz nada! É, um olho bem grande tá bom para eles! Um dia alguém fará uma boca enorme, talvez uma orelha, mas por enquanto, só o olho!”. O pessoal adorou...e vamos lá admirar todo final de semana: finalmente alguém nos decifrou...somos um olho gigante!      
Na política, supostamente, seríamos de direita: mas as “Diretas Já” saíram daqui! Assim, do nada.  Quando as pesquisas dizem que a Direita vai levar, a “esquerda” leva, só para contrariar a pesquisa. Mas e se a direita se dizia...”socialista”? Contrariamos o que havíamos contrariado, para contrariar o que havíamos confirmado.  Então, depois de todos estes exemplos, que mal haveria em se mudar o dia do final de ano, para um dia qualquer, diferente? Para qualquer dia, menos o da virada do dia primeiro: “Hunn...que coisa normal, mais de cinquenta por cento fazem isso, e o pior, que horror, 99% fazem isto! Não é possível, vamos mudar!”. Então, qualquer mês serve. Que tal março? Hunn...é, pode ser, janeiro já passou mesmo! Claro, não vamos iniciar o ano sem termos ido para praia. E em dezembro só chove! Aliás, chove o ano inteiro.  E não contentes em mudar o dia de final do ano...nós ainda precisamos de um projeto burocrático para isso. Precisamos que passe pela Assembleia dos Deputados. E por que teríamos medo do ridículo? Os caras mudaram o réveillon por lei! E daí? Que se dane o resto do mundo! Claro, já viu curitibano fazer algo sem projeto? É como encontrar um curitibano fora da fila: “Olha lá o cara, fora da fila, aposto que não tem projeto! Não deve ser daqui, coitado!”. Sim, nós temos um projeto até para...entrar no ônibus! Temos um mapa para isso! É inconcebível para nós, que as pessoas subam no ônibus sem filas e ninguém brigue por isso. Quando vimos isto em outra cidade, simplesmente não acreditamos: como eles podem fazer isso? Como podem abrirem mão de seus lugares na fila? Como funciona?  A primeira coisa que um pai curitibano faz quando seu filho tem uns três anos é chegar ao ponto de ônibus e dizer: “Filho, isto é uma fila! Este é o nosso maior orgulho. Sem filas...não haveria civilização! Por isso, as filas são mais importante que a civilização. Guarde isto para sempre e  nunca leia um tal de Henry Miller que é um subversivo! Não questione nunca as filas! Sem elas não existiríamos como povo!”.  Aliás, nós iniciamos nossas conversas informais assim: “Meu nome é fulano de tal...e meu projeto é esse! Qual o seu? Não me diga que é só bater um papo informal que eu não acredito! Você não é daqui, né? Logo vi, tava fora da fila! ”.
Nós temos fama de ser um dos povos mais cultos do Brasil, e um dos vereadores mais bem votados da nossa cidade é um tucano que imita... o trote de um “cavalo”! Claro, nada mais normal, para nós, que um tucano seja um cavalo, um papagaio seja um elefante, uma girafa seja uma minhoca. Por isso acho que logo mudaremos também a data do natal: 100% das pessoas o comemoram na mesma data. Um horror! Que tal comemorarmos o natal na páscoa? Não é má ideia. Vejam a contradição: somos um povo que tem uma das maiores áreas verdes do Brasil...mas vivemos dentro dos shoppings! E ainda dizemos: “Hunnn, shopping estranho...não tem área verde! Que anti-ecológico!”.
Dizem que dirigimos mal. Não, não...nós apenas dirigimos ao contrário do resto do Brasil. Para que dar a “vez”? A maioria faz isto. E se ele sabe que aqui não tem “vez”, por que quer vez? Tá pensando que está em São Paulo? Lá é caos por quê? Porque todo mundo dá sua vez para o outro que quer entrar! Se cada um ficasse com sua vez, isso não aconteceria nunca. Que fique na...fila! Se temos algum orgulho aqui... é o de não dar a vez para ninguém e cada um ficar na fila esperando sua vez! Todos sabem disso. E se o trânsito tá um caos, pelo menos é um caos nosso, em fila, bem organizado. E por que dar seta? Que coisa normal. A pessoa que vem atrás deveria saber que eu dobro aqui, que sempre dobrei aqui a vida inteira. Azar dele se não nos conhece! Estou em minha razão. Ah! Não deve ser curitibano, coitado. “Barbeiro”! O que estraga o trânsito aqui é este pessoal de fora, com estes costumes estranhos...
Nós dizíamos que tínhamos um dos melhores sistemas de transporte do Brasil...e sempre mantivemos um “bonde” no meio de um dos nossos principais pontos turísticos. Precaução! “Guarda-chuva”! Enquanto ele estiver ali, nos sentiremos seguros. Se o “melhor” falhar...temos alternativas! E já cansei de ouvir: bons tempos aquele dos bondes! Somos saudosistas... mas ai do administrador que não inventar algo mirabolante: uma ópera de arame, de elástico, de plástico, qualquer coisa que destoe do clássico da ópera (quer apresentar uma ópera aqui? Apresente-a em cima do arame!) ; uma Linha Verde reta e impenetrável (mas “verde”, o que é o mais importante: se vai funcionar ou não pouco importa! Basta ser verde!); um Farol do Saber de Alexandria mesmo que seja no meio da favela; uma Rua vinte e quatro horas ( ainda que durmamos cedo, prefiramos as reuniões na casa de amigos e prefiramos ir ao cinema. O que importa é que ela estará lá, símbolo de nossa “rebeldia” contra o tempo...mesmo que feche a meia noite! Aliás, a nossa Rua 24 Horas jamais poderia funcionar 24 Horas, seria um contra senso, uma aberração! Por isso não deu certo, por esta insistência idiota. As coisas não funcionam assim aqui! Não são os turistas que mandam aqui, somos nós, eles que se adaptem! Não temos obrigação nenhuma de agradá-los).     
 Nós tivemos aqui a Guerra do Pente. Ora, podem procurar nos anais da história: não existiu “Guerra do Pente” ou similar em nenhum outro lugar do mundo. “Pente”? Isso lá é nome ou motivo de guerra? E a “Guerra do Cortador de Unha”? E a “Guerra da Presilha de Cabelo”? Talvez seja porque ninguém no mundo  faria uma guerra por um pente. Nós fizemos. AH! Fizemos. É uma questão de vaidade. Podem roubar bilhões do Banestado, o presidente da Câmara de Vereadores pode desviar o dinheiro da publicidade por décadas, ninguém vai fazer nada... mas se alguém colocar um preço abusivo em nossos pentes, aí o bicho pega.  É motivo de um conflito sangrento. E adivinhe quem começou a briga. O povo? Não, o povo veio depois, mas a coisa iniciou com um...militar! Se não, que graça teria? Mais de 50% não consideram os militares civis. Eles estão errados. Um dos nossos maiores escritores teve uma formação anarquista...e é anarquista “de direita”! Já viu um anarquista de direita? Aqui tem. E já viu um anarquista de direita escrever de forma extremamente bem pontuada, seguindo todas as regras gramaticais? Aqui também tem!
Eu sou curitibano e também estou acostumado a ser “ao contrário”. Eu levo um papelzinho no bolso até encontrar uma lixeira, mesmo quando não estou aqui em nossa cidade. Em uma ocasião, fui apresentar-me a uma pessoa em outro município e tirei, no lugar do cartão, um maço de papel de balas “7 Belo” (as quais havia degustado), que havia guardado por não ter onde jogar,  e entreguei a ele: “Muito prazer, sou curitibano, como pode ver! Que culpa eu tenho se sua cidade não tem lixeiras?”. E o pior é que, apesar da fama, a maioria de nossos parques e ruas dos bairros nãos centrais...não tem uma única lixeira. Só para contrariar.    Eu entrei em um sebo em São Paulo e perguntei por que as revistas e livros não estavam em ordem alfabética, separadas por temas, e o cara me disse: “Ora, assim é mais interessante: a pessoa encontra o que não procura!”. Eu, claro, argumentei, como um bom curitibano: “E se ela não encontrar o que está procurando nesta bagunça?”. Então, ele respondeu: “Quem entra num sebo procurando alguma coisa específica é louco! Veja lá o nome na placa: “sebo”. Está escrito livraria? Não, não está! Nós não temos obrigação nenhuma de sermos extremamente organizados. E o senhor não é daqui, pelo jeito. É curitibano, aposto!”. Como ele descobriu? A resposta do cara foi inteligente e como eu não tinha o que dizer, dei de ombros e disse: “Se-pa-re!”. Por isto a “reciclagem” pegou aqui. Nós gostamos das coisas nos seus devidos lugares. E depois que elas estão em seus devidos lugares... aí sim, nós fazemos aleatoriamente o que quisermos. Nós bagunçamos tudo. Entrei no sebo para comprar um livro de filosofia...e levo um gibi do Pinduca! E daí? O que tem uma coisa a ver com outra? Mas que o Pinduca estava no lugar exato, estava e ai se não estivesse. Talvez, por isso, depois que nos damos ao trabalho de reciclar  o lixo...ele é amontado tudo no mesmo lugar pelas empresas de coleta! É óbvio que o governo sabe que gostamos apenas da “aparência” de organização.  Os ônibus tem pistas exclusivas...mas dirigimos “costurando” pela direita. O trânsito é um caos. Mas os ônibus estão lá, “certinhos”... E ai deles se não ficarem lá, comportados. É obrigação deles. Não saiam daí, hein!
A terapia aqui é interessante. Nós somos educados e reservados. Entramos, sentamos no divã e perguntamos ao Doutor: “O senhor está bem? Como foi sua semana? Tudo normal?”. E o pior, ele responde: “Ando meio ansioso ultimamente!”. Curitibano não fala com estranhos, por isso, a psicanálise não prospera aqui. O psicanalista é o cara mais estranho que já vimos. E por isso também falamos tão pouco com nossos vizinhos. Sim, de fato, reparem bem, nossos vizinhos são todos estranhos. Eles não nos enganam, são mais de 50% de algo chamado vizinhos. E eles, com certeza,  pensam da mesma forma sobre mim. Por isso não nos falamos. Falar com vizinhos? Que horror, que coisa mais óbvia!
Ultimamente, os curitibanos deram de rir de si mesmos. Claro que optamos pelo humor solitário, o stand-up. Não suportamos ninguém no palco com a gente. Seria estranho demais. Mais de 50% fazem isto.  Mas como explicarmos este súbito interesse pelo humor se sempre fomos tidos como sisudos. Mas isso foi até sair uma pesquisa que apontava que 90% de nós éramos sisudos. Nós não iríamos suportar isso por muito tempo, iríamos? Então, começamos a rir...simples assim. 

*Permitida reprodução com permissão do autor e se for curitibano. Só nós podemos falar mal de nós mesmos!      

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Poesia - Sangração da Primavera






Sangração da Primavera

Ah! Teus braços abertos ao espaço,
com o coração saltado em busca do infinito,
rompendo o peito de carne em busca do sol
A dor e a beleza de estar à natureza
penetrando no mistério de ser o não-ser
Procurando desesperadamente o silêncio na música
no ritmo inconstante repleto de harmonia
Dançará solitário o próximo acorde que virá sem saber qual
Acertará no alvo que se move calculando onde ele estará
Você sabe da fúria e da força das sementes rompendo a terra
Da dor da pétala-criança rasgando o ar em busca da vida
da primavera levar o sofrimento do não-inverno
e o vento levando as tenras folhas mortas ao paraíso
Por isso há de querer também quando não deseja,
brincando de matemática, imputando valores abstratos
conseguindo resultados jamais calculados
Fará música de ruídos e se lixará para a plateia
(Enquanto a humanidade ainda não existir, só você a substituirá!)
Terá que acreditar no que imagina belo
E depois de tudo, olhará para o jardim florido, satisfeito,
Você o plantou desconexo em uma unidade concebida de tudo
e ao vaiarem por serem incapazes de não florirem por si mesmos
sorrirá, discreto,  levando a dor e o prazer de não ter sido entendido:
Ser música é esperar o tempo exato de sonhar o não-sonhado
Humano demasiado de uma forma como ninguém antes havia sido!

* Permitida reprodução com citação do autor.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Reflexões bem humoradas sobre o Dia de Finados



Reflexões sobre o Dia de Finados
- Se de fato é pior para quem fica, porque ninguém quer ir junto?
- Fazer piada da vida qualquer um faz, quero ver fazer da morte...
- Resumir uma vida a um epitáfio é como reduzir uma ópera a uma nota.
- A gente vai empurrando o além com a barriga, para o mais além possível...
- Nada é mais triste do que perder um ente querido, ainda mais quando este lhe devia dinheiro... E não se fala mais nisso.
- O problema da dívida eterna é que não há bancos especializados para recebê-la.
- A morte é a piada pronta do destino.
- Criaram um dia para lembrar dos mortos. Os índios, mais evoluídos, cultuam a lembrança dos antepassados constantemente em suas vidas.
- De fato, as pessoas nunca partem se não quisermos, mas nós sim partimos da lembrança que levamos daqueles que já se foram.
- A vida eterna parece tão chata, enquanto a vida temporária é cativante por isso mesmo. A vida sem a morte não teria valor nenhum. Poderíamos tomar todas as decisões erradas até acharmos a certa pelo excesso de tentativa, e isto tira todo o mérito da coisa.
- Somos tão hipócritas que cultuamos metodicamente os que já foram e muitas vezes não estamos nem aí com os que ainda estão aqui.
- “Quando eu morrer não que choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela”. Até hoje não sei por que nenhuma funerária adotou este slogan. Talvez seja porque o comércio das mortes é dos “vivos”.
- Quando as pessoas se vão, jogam sobre nós todo o peso de sua existência e permanecem em nós com sua essência como nunca conseguiram em vida.
- “Viver e não ter vergonha de ser feliz”. Com esta música, Gonzaguinha deu o drible da vaca na morte,  no futebol da vida.  
- A morte tem a incrível capacidade de tornar eternamente boas,  pessoas que tinham defeitos horríveis. Até hoje não entendi como eles somem misteriosamente. Um verdadeiro milagre!      
- Com esta onde de assaltos, até no cemitério a gente tem que estar de “olho vivo”.
- Pode ver, no Brasil, naquele túmulo que quase não recebe visitas, jaz um filósofo. A humanidade é idiota até quando cultua emotivamente seus melhores antepassados.
-  Percebemos que chegamos a melhor idade quando decidimos  lembrar daqueles que se foram para não lembrar da lista dos que possivelmente logo estarão indo.  
- O preço dos enterros estão pela hora da morte.   
- Vingança póstuma - A viúva deu uma enorme gargalhada em frente ao túmulo do falecido e disse em voz alta: viu como você é idiota, eu falei que tua amante não viria!
 - No dia de finados eu sempre vou visitar o túmulo de “soldado desconhecido”.  Ele lutou até a morte pela minha liberdade sem ao menos ter me conhecido e deixou-se esquecido. Já, quanto aos conhecidos que se foram, estarei sempre preso emocionalmente a eles, mesmo que não os visite em seu dia e eles tenham se recusado a emprestar-me dinheiro.
- Existe uma lei que proíbe alguém de receber nome de lugar público antes de morrer. Uma hipocrisia sem tamanho, mas razoável no caso dos políticos que dão nome a lugares para quem lhes interessa politicamente e não pelo seu valor humanitário. Em todo caso, quem não adoraria andar por uma rua e dizer: “essa é minha! Veja ali, sou eu na placa!”. Depois de morto, não tem a mínima graça, imagino.  
- Pena que a morte não é brasileira, ou seja, extremamente burocrata. Até chegar o seu dia, perambularia pelos corredores departamentais e necessitaria de tantos carimbos e vias que não íamos morrer nunca.  
- Dizem que gatos tem sete vidas. Os ratos, claros, não acreditam nestas superstições felinas.  
- Algumas culturas tem o hábito de escolherem alguém entre os seus para  tecer comentários elogioso sobre a pessoa que partiu, no dia do sepultamento. Imagino que devam escolher sempre o mais mentiroso da família. No meu caso, eu preferia que fosse assim mesmo.
- É bom ter defeitos, porque ninguém suportaria que alguém tão perfeito nos deixasse.
- Não sei o que é a morte: e  na falta de uma definição racional,  ela para mim não existe.
- Pena que a morte não seja como uma cliente de um destes serviços de atendimento remotos de telefonia e nós fossemos a operadora brasileira. Nós a passaríamos de ramal em ramal, até que ela desistisse para sempre. E ao final, que nos mandasse ao Procon. Ninguém acredita em milagre mesmo!  
-Tinha tanto medo de morrer, que fugiu sempre da vida, mas acabou como todo mundo acaba.    
- A vida é tão curta que não dá tempo para ficar lembrando que a morte existe.
- Em sendo crianças, nos sentimos eternos e o tempo não passa nunca. A sábia matemática da vida é simplesmente não levar o tempo em conta.
 
* Permitida reprodução com citação do autor, ainda em vida. Proibida reprodução pelos mortos (é, na dúvida, vai saber, né?).  

domingo, 21 de outubro de 2012

Humor - Ata da Creche Cimeira das Américas




Ata da Creche Cimeira das Américas
Queridos pais:
                Ontem foi realizada nossa reunião infantil dos alunos da Creche Cimeiras das Américas. Nosso complexo de ensino escolar, que compreende os cursos noturno (OEA) e à Distância (ONU), vem por meio desta, relatar esta importante atividade dispensada aos pequenos de 04 a 06 aninhos como forma de imputar-lhes alguma forma de responsabilidade. E contra todas as expectativas, em meio à algaravia própria da idade, alguns beliscões daqui, um chorinho acolá, pega-pega, tropeços, beicinhos, bolinhas de papéis, chegou-se a um acordo. Crianças problemáticas e agressivas, como os Euazinho e Colômbinha, sentaram-se comportadas com a lancheirinha a tiracolo: pareciam gente grande e controladas emocionalmente! O tratamento com o psicólogo vem surtindo efeito e estão aparentemente mais calmas, mas todo mundo ainda tem medo de sentar perto deles devido ao histórico de agressão nos corredores,  no pátio da escola, e as surras escondidas no banheiro da creche nos alunos que discordam deles.   Um detalhe que chamou a atenção: o  Brasilsinho, tão bonitinho, todo colorido  (desta vez com bem menos verde, ouro e ouro-negro), mas pelo menos com uma roupinha menos esfarrapada, choromingou e fez beicinhos para os alunos um pouco maiores, da sexta-série, que, segundo ele,  querem desvalorizar suas moedinhas. Ninguém  deu muita bola para o chorinho miúdo do menininho. Tadinho, com a aquele tamanho todo, não consegue se impor. Problema de complexo de inferioridade. Todo mundo já está acostumado com o grandalhão resmungando e chorando baixinho nestas reuniões. Já a Argentininha, menor, mas temperamental,  disse que  cansou de ver os alunos maiores roubarem o seu lanche e agora não quer mais dividir o seu suco de uva com ninguém. Por um outro acordo, realizado na reunião passada,  não se sabe o porquê, a Argentininha havia vendido seu suco de uva, mas agora o quer de volta, integralmente. Achou que o acordo foi injusto. Seu amiguinho do Norte disse que vai avisar seus tios Inglesinhos e Espanhóis e que isto não vai ficar assim: como é que eles não podem continuar a tomar o suco de uva dela? Argumentaram que sempre foi assim na creche: os maiores pegam o que querem, quando quiserem, de um jeito ou de outro. A criançada também não prestou muita atenção para a encenação da peça o “Reizinho e o Lorde Investidor”, normalmente apresentada pelos alunos maiores com o intuito de intimidar financeiramente os menorzinhos, com a apoio do jornalzinho do colégio, também comandado pelos alunos maiores. A redatora do jornalzinho, a aluna interna Miriam Leitãozinha, até quis dar um puxão de orelha da Argetininha, mas, como todos sabem, a Leitãozinha é aluna repetitiva:  está com doze anos na quarta série, porque ainda não sabe fazer conta de dividir,  e sempre tende a bajular os maiorzinhos, motivo pelo qual se mantém eternamente no posto de arauto dos maiorzinhos. A criançada nem deu ouvidos a ela, porque já a conhecem muito bem: quando houve um enorme desfalque no caixa do Grêmio do Colégio, dirigido pelos alunos maiores, Leitãozinha disse ter sido pega de surpresa, não saber de nada do que acontecia em sua volta ( apesar disso tudo ter acontecido bem de baixo de seu nariz voltado para a estes assuntos desde que entrou na escola), e defendeu a ideia de que deveriam ser os alunos, principalmente os menores,  que não tinham nada com isso,  que deveriam cobrir o rombo. O fato de Leitãozinha dizer não saber de nada do desfalque, levantou suspeitas até dos aluninhos da quarta-série que de bobos não tem nada: “Como é que isto acontece e ela nem avisa ninguém, posando como professora no assunto? Ou ela não sabia mesmo, então é bobinha, ou sabia e não falou nada, o que é cumplicidade ”, comentaram na hora do recreio.
                A surpresa mesmo foi o Equadorzinho, que não quis participar da reunião, o que motivou  beicinhos de seu irmãozinho do Norte que gosta de todos sentados nas cadeirinhas da creche, mesmo que nunca se decida nada: “Até a Boliviazinha participou, por que o Rafaelzinho não veio? Quer ficar isolado? Quer tirar o poder de nossa reunião? E se todos acharem que isto aqui não decide nada mesmo? ”.   Rafaelzinho, por sua vez, se acha maduro para os seus cinco aninhos e preferiu ficar na sala, estudando: “eles são muito infantis, e o tempo de ficar brincando de roda já passou. Precisamos decidir é sobre quem compõe a Direção do Colégio”, disse Rafaelzinho, que parece ser precoce.
                O acordo a que chegaram os aluninhos da Creche Cimeira das Américas, é de que continuarão posando para fotografias e sorrindo quando se reunirem. Isto é um grande avanço, porque as fotografias continuarão a ser emolduradas e colocadas no mural da Creche como símbolo de que podem sentar juntos e conversarem, ainda que seja só isso que conseguem fazer. O jornalzinho continuará a publicar as  fotos e terá assunto para continuar comentando por algum tempo, sem o que não teria nada de mais importante a fazer. Como sempre, os aluninhos mal aguentavam a hora de tocar a sineta para irem brincar no pátio do recreio, em seus acordos bi laterais, onde o que vale mesmo é a força física de cada um.   Quando tocou o sino, saíram em desabalada carreira pelos corredores. Coisa própria da idade.   
                Atenciosamente
                Direção da Creche Cimeira das Américas      

* Permitida reprodução com citação do autor

Poesia - Nesse-cidade-de-Mim




Nessecidade-de-Mim

Quando cada flor gorjeia matutina
e não suporta a pétala o peso do pingo,
caio na maravilhosa possibilidade da existência.
Não uma, mas milhares de um jardim imenso.
Não desse Botânico pré-fabricado, mas esparsa por aí,
Quem sabe encontrar-me-ás não em canteiros
(sina a beleza encontrar-se sempre longe do óbvio):
Um domingo que descansa nos braços do cedro
Um sol que brinca nos galhos da araucária
(Mesmo que filho de Angustifólia e outras angústias!)
Sou eu a antiga corredeira Barigui que desagua Bodziack  
E a alegria do gélido vento beijando o rosto curitibano.
Um bondinho que pára pra você no tempo do Era.
A bola de neve atirada em teu rosto em 1975
Mico que roubou a pipoca do teu pacote no Passeio Público
O trottoir da princesa à calçada da velha Saldanha
A traíra matreira que fugiu do teu anzol no Passaúna 
Bonequinho mecânico das antigas Casas Suíça.
E teus olhinhos de criança, abismados ao ver-me a mover:
“Que feitiçaria é essa, mãe, que nós bugres não a-temos? “
Sou eu o menino que vê o desfile na Marechal e pensa:
de onde surgiram mulatas no meio desta gente tão branca?
Não sei o porquê, mas amanhã serei novamente amanhã,
mas deixarei que ontem me cubra para que durma para sempre criança
e nine a cidade que embalei em meus sonhos


* Permitida reprodução com citação do autor

sábado, 20 de outubro de 2012

Poesia - Amor Universal no Theatro Burguês



Amor Universal no Theatro Burguês

Um corpo de estrelas em DNA de uma galáxia distante.
Um quase profundo de tudo, um Quasar.
Perambulo fóton em volta de você, núcleo,
Estando- e- não estando, sendo- e- não,
Apesar de ínfimo, indefinido, indecifrável,
Faço tudo sólido sem saber como.
Orbito um planeta impossível.
Distante, mas exato.
Cumpro minha missão, solitário.
Não me preocupo em escrever coisas belas!
A beleza está em apenas nos contentarmos em sermos
felizes-elipses  em sintonia com pequenos mundos,
que  nos foram  generosamente concedidos.  

Com um gesto, organizo a gravidade dos corpos celestes.
Explodo supernova em um canto secreto do Recital
Escorrem meus olhos pelo anfiteatro repleto
Pela emoção de ser música como você é
Ninguém viu, ninguém sabe, mas  chorei de luz,
de dor, de prazer, de amor,  por bilhões de anos, aqueci.
Em sarjetas, sem dinheiro: poucos amigos, mas todos clássicos!
E agora estou aqui, sorrindo para você meio amarelo:
se iluminei um pouco, já cumpri com minha missão!
Você sabe que segui com humildade o meu destino.
Quando o violino corta a seda vermelha do vestido
Escondidos sob as cortinas do camarote discreto
Desloco as alças de modo a ver os teus seios- de- sol
Cadentes, teus olhos- serpentes encantam
(Vejo isto com todo egoísmo possível
de quem solitário foi cometa errante
-agora com-pungi-do -
e de  tanto errar achou seu caminho universal!)
Como maestro rege sinfonia, calado,
Em tuas mãos a música em silêncio concentrada
Com um único gesto, cria Eva só para mim
De um semitom da última cítara
De uma unidade de tempo semínima
Não, não me preocupo em explicar coisas belas!
Ser semideus está na estrutura óssea do ser humano.
 (Enquanto muitos se contentam com nada!)
Você despe-se como uma puta do cabaré de Lautrec.
Sabe do que gosta em mim e eu de você 
Abaixa a calcinha sob o suave dedilhar do piano,
(Ah! Mesmo que de Tuba fosse, instrumento do estranho!)  
E do êxtase de ser só por você regido, gozo!
No Ato, o prazer sem querer goteja de luz
o chapéu da madame emplumada no inferior
Pela doce fresta infame da essência humana
Teu gemido compõe magistralmente o “gran finale”
Ninguém “nota” já que não são música como nós o somos
Ao descermos as escadas felizes por mais um concerto na vida
Encontramos por acaso a gozada de mãos dadas com o marido
Por estar tão parecida com Madame Bovary,
pergunto-lhe, ironicamente à saída:
“Desculpe a impertinência, mas o casal tem uma aparência de que gosta de Flaubert “
Ela faz pose, reflete, e sem o menor pudor diante do esposo, responde apressada:
“Sim, obrigada, mas prefiro  Oboé!”

(Os burgueses sempre foram idiotas, mas ninguém pode afirmar
que verdadeiramente não se esforçaram para entenderem a arte!
Azar deles: arte não é só entender, mas aprender a entender só, por amor ao outro.
E como bem sabemos, eles detestam encontrem a si mesmos.
Talvez seja por isso que só vivam em lugares públicos solitários de humanidade!). 


*Permitida reprodução com citação do autor. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Poesia e música: Acerto de contas em Manchu Pichu

Em um pequeno boteco às cercanias da rodoviária
Uma pequena máquina de músicas mecânicas
Instalada no canto dos olhos de gente simples
O velhinho de braços dados com a puta
Pedreiros ouvindo “des-construção” de Chico
Com um às de espada na mão gritei truco
Enganando a vida com um facão no destino
Nascer velho e morrer menino
Toquei o sino da missa das sete, às seis
Sentei no banco da praça olhando “o çeis”
Rindo dos fiéis à missa, perdidos sem Padre
Ficarem 1/3 perdidos na conta noves fora

Fingi ir embora e voltei distribuindo rosas
A todos àqueles que acreditaram na sorte
Pois quem dribla a morte tantas vezes
Como um garrincha da perna torta
Entende que o grande segredo da vida é brincar ao ter vencido
e saber perder engrandecido!
Pois vencer mesmo não importa mais do que ter resistido!
Embaralhe tudo novamente e ponha ficha na máquina
A rodada por minha conta...
AH ! E não esqueça a solidão naquela mesa do canto com os braços abertos
Como um deus indiano, um Confúcio, um Buda ou Jesus
(Tanto faz o teu deus, se ele não nos matar por não crermos!)
O pote de rollmopes? Mandala de quem achar a cebola
E de novo com poucas cartas, transformar a vida em arte!

Em Machu Picchu existe um segredo pouco conhecido
Ser Inca, Guarani, Tupi ou Maia, antes dos religiosos chegarem
E em nome de seu “Deus de Amor”, roubarem o nosso ouro!
Matarem nossos filhos, catequizarem-nos com soldados do Papa
Usando a música para nos transformarem em escravos
(Enquanto a máquina do canto toca Fernando do ABBA!)
Por um século duvidarem se tínhamos realmente alma
(Enquanto a deles repousava à fossa!)
E séculos depois nos pedirem perdão em praça
Sem devolverem o que nos saquearam
E fica tudo por isso mesmo? Bela trapaça!
Um prato de torresmo? Cortesia da casa!
Vocês já não tem coração mesmo!
Enquanto El Condor Passa no sorriso fútil
De uma coroa puta, com salto alto furando nuvens!
E  Pizarro solitário, resmungando num canto
Com um saco de ouro escondido debaixo da mesa
Com medo que levemos seu suposto tesouro!
Uma figura bizarra, violenta, ignorante, do inferno de Dante
Ah! Pizarro, visitador do Bispado,
Por que não volta a Espanha para criar seus porcos?
De que valeu tudo isto, tantas mortes e horrores?
Inquisições malditas, cobiça, ganância e dores?
Nós sempre fomos felizes tendo tão pouco
E com um pouco de tudo sempre fomos tanto!
Apesar das virgens sacrificadas no poço,
costume bestiail, fruto de uma ignorância ancestral
Não menos que a Idade Média infernal
Onde queimaram as mulheres mais sábias

Nada se compara ao Peabiru, das curvas de níveis íngremes
ao colorido das penas guaranis às margens do Iguaçu
Ao amor que devotamos a todos que vieram aqui!
Aos quais recebemos com amor fraternal
como irmãos de um país distante!

Aos “civilizados” em Manchu Pichu
resta à mesa do canto um copo de bebida amarga
Onde tomam a si mesmos aos poucos
Com olhos amedrontados de tudo:
do passado, do presente, do futuro e do sentido de grandeza!
Enquanto a certeza ri de tudo espelhada
Nos olhos de pobres, migrantes, imigrantes!

Truco novamente, filhas-da-puta! Caralho de Coroa Espanhola e Portuga!
E todas as coroas de todos os Impérios
Enfiem no cu os seus reis e sua religião
de cruzes Cravadas no peito da história!
A porta da rua é serventia da Casa!
E nosso ouro roubado podem entregar aos Ingleses
Pois tomarão o chá das cinco calmamente
Mesmo sabendo que o mundo acabará às seis!
(Eu sei porque tenho no sangue o mesmo sangue de vocês! )
Esta gente do Norte, para as quais quanto mais profundo o corte,
Mais se julga elegante, superior e forte,
com seus bancos fraudulentos, Assanges presos em embaixadas de países democráticos,
fuzis milimétricos, napalm e bombas atômicas
em nome de um discurso fraco, lúgubre e imoral
à mando do Império da Morte e do Mal!
E por suprema ironia do Destino, agora, em Manchu Pichu
nos encontramos para acertarmos as contas:
descendentes de ingleses, eslavos, italianos,
franceses, suíços e até búlgaros
Somos todos um pouco indígenas
Trazendo também no sangue os bugres e negros
Exigindo justiça no mundo!
O que faremos agora que somos todos americanos?
Ora, lutamos, como fizemos sempre!

 
 Abba - Fernando - 1976


  EL CONDOR PASA MARITZA DE LA CRUZ

 Bar Manchu Picchu Curitiba

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Poesia: A Ópera da Bengala

Esporadicamente, creio, procuramos em nós as razões profundas pelas quais vivemos.
A melhor delas, para mim, é não morrer, óbvio.
Mas as encontramos em diversos lugares, conforme nos construímos interiormente.
O que seria, para mim a vida, sem os ritmados toques da bengala da minha vizinha de oitenta e poucos, batendo à calçada amanhecida?
Cada toque é um coração pulsante que diz: viu, eu venci! Eu estou aqui!
Detesto pessoas radiantes pela manhã: nenhum animal, a não ser os pássaros que dormem cedo, agem assim. Geralmente, eles, os animais,  espreguiçam-se até não mais poderem para o dia entrar aos poucos.
O cotidiano é motivo de orgulho, antes de desespero.
Procuro  detalhes esquecidos. Delicia-me a rua deserta. O planeta só meu.    
Compro cigarros no mesmo lugar, acendo-os metodicamente.
Distribuo fáticos bons-dias como a forasteiros aos quais nunca mais verei.
A sensação de ser eu invade-me e detesto intromissão.
Sempre imagino o que diria ao ver-me absorto caminhando pela rua:
“Sujeito estranho, esse socialista: para amar o mundo, precisa manter certa distância dos humanos”.
Claro que sempre os culpo por estragarem as mais belas teorias com suas vaidades tolas.
Gosto dos resumos:  a maior vingança contra os que desistem é o solo de um bengala solitária na calçada do mundo. Ah! Como é bom quando o teatro abre somente para você assistir a ópera da resistência!  
Gosto de pensar que sou único, apesar de ser igualzinho a poucos.     

* Permitida reprodução com citação do autor

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Poesia - Tempos Modernos


Flertam meus passos ao acaso no terraço Jean Cocteau
Encontro Breton e aviso que Julian Assange está preso
Aonde? Ele diz, curioso. Em uma embaixada do Equador em Londres!
Respondo com toda ironia de Willian Burrougs
A polícia reprime violentamente manifestantes em Madri
A festa está no começo com Billie Holiday e Bossa Nova
Mae West sorri, estirada e sensual no sofá
John Reed trás novas notícias do Leste Europeu
Eu pergunto ao poeta ao lado:
Apesar de tudo, como o mundo tornou-se tão chato, Ruben Dario?
Ainda mais fatal o beijo da pedra porque esta já não sente?
Novidades? Sim, claro:
Subi ao palanque improvisado e discursei em Porta Del Sol!
O charme da burguesia já não é tão discreto como na Belle Èpoque
Descalça, “Pacha Mama” chora convulsiva nos braços de Che
Shiva brinca com um charuto cubano bailando nos lábios
A dor de Marghuerite Duras balança no Pêndulo de Foucault
Warhol (quem o convidou?) beija a rosa e morde as pétalas, cuspindo-as
Outro ladrão como Kerouack, penetra de festas libertárias!  
Desço e vomito nas escadas de Wall Street como Ginsberg o faria
Indignado, ocupo as praças do Império, grito como louco em frente ao shopping
Discuto com Wandy pela enésima vez sobre Marlyn  
Fritjof Capra lê atentamente o Tao da Física
Como se estivera numa casa de palafita no coração do Amazonas
Enquanto volto coyote novamente ao México
AH! Lembrei esses dias da elegância de Cassius Clay
e dos jabs de Eder Jofre, desabafo com Ted Boy Marino!
Sidney Poitier vem para o jantar com uma mulher branca,
avisa-me Cláudia Cardinale!
Folheio um gibi de Crumb, desinteressado
Quando você senta ao meu lado com teu ar de vinte anos
E pede que eu fale de política e poesia
Digo que prefiro falar dos teus seios tão belos
Da descoberta do mundo com teus olhos
Arrancados pelo bico de um gavião faminto
Até que  o dia nasce e o sol beija-me os lábios
caminhamos bêbados pela Praça Santos Andrade,
de mãos dados permanecemos calados,
Sentamos ao lado do Chafariz com olhos de nada
E você pergunta:  então, por que o mundo tornou-se tão chato?
“A culpa foi minha, querida! A culpa foi minha!
Levei boa parte da vida construindo pontes, quando as devia
ter demolido! Ainda pela manhã, preciso derrubar com uma marreta, a escada!”
Você  faz cara de que não entende nada
Quando me vou solitário assistir navios partirem do Porto!

* Permitida reprodução com citação do autor.

Quem sou eu

Curitiba, Paraná, Brazil
Jornalista, escritor, poeta, Diretor de Comunicação do Instituto Reage Brasil (IRBRA)